Segunda, 12 Outubro 2009 23:39 Actualizado em Terça, 13 Outubro 2009 10:55
Á cerca das muitas conversas que temos levado a cabo no seio da associação sobre a utilização ou não do ascensor(?) da Petzl chamado de SHUNT, resolvi escrever este artigo de opinião, com base em pesquisas efectuadas na net, experiência própria e num parecer da Petzl de há alguns anos (infelizmente não o consegui encontrar agora), que recomenda a NÃO utilização no Shunt no meio espeleológico como segurança na descensão de vias em corda.
Obviamente que sou conhecedor da opinião da maioria dos formadores da federação, cuja postura é da imposição deste equipamento, NÃO sendo minha intenção colocar o seu discernimento em causa ou afirmar que estão errados. Possivelmente eu é que não estou a ver bem as coisas…
Na minha opinião, a formação de um espeleólogo passa por o ensinar a utilizar correctamente o equipamento de que dispõe ou o melhor que poderá vir a dispor, extraindo do mesmo as suas capacidades e controlando as suas fraquezas, de forma a facilitar a sua progressão em total segurança. Bom, vamos por fases.
No seu site, a Petzl (http://www.petzl.com/en/outdoor/multi-purpose-ascenders/shunt) apresenta-nos o Shunt com um ascensor multi-funções, com o seguinte texto:
Concebido para:
Também bom para:
Para os leigos, o Shunt é este simpático instrumento que aqui vemos aplicado na corda.
Com um procedimento de montagem muito simples, este instrumento de aproximadamente 200 gramas tem sido utilizado há décadas com bastante sucesso, mas não é um equipamento perfeito, como alguns já me disseram, e a sua utilização em instrução é, na minha perspectiva, questionável. Em termos de estrutura, temos o corpo de dispositivo, a alavanca de fricção, onde o utilizador está arreatado (ainda vou escrever um artigo sobre o termo “lonjado”) ou suspenso e a cauda (chamada, na literatura técnica em Inglês de “cow tail”), responsável pela permissão do travamento e segurança do utilizador.
Na teoria, quando o inexperiente espeleonauta perde o controlo do seu descensor, que poderá ir de um reles oito (ainda muito utilizado em certos meios espeleológicos!) até ao Simple da Petzl, só tem que largar a cauda e a sua descida é parada após um breve período de amortecimento, em que o sistema de fricção do Shunt desliza pela camisa da corda. E é assim que a coisa funciona, mas…
Nas minhas pesquisas pela internet, encontrei inúmeros relatos de acidentes com Shunt’s, sem nenhum relatório credível dos mesmos, assim como um muito maior número de sites de associações de espeleologia que defendem a utilização do Shunt em instrução, embora não o façam nos níveis mais avançados de formação. A única questão parece ser, deste modo, a melhor forma de evitar acidentes em formação, instruindo o candidato na utilização de um sistema de segurança que o mesmo não vai voltar a utilizar, pois essa parece ser o caso da maioria dos espeleólogos experientes, pois ninguém pode negar que, ao acompanhar equipas com longos anos de práticas, o Shunt não é equipamento visível em expedições. De qualquer das formas, aconselho a leitura (infelizmente apenas em Inglês) dos seguintes documentos:
http://www.ropeworks.com/s.nl/it.I/id.56/.f (depois escolher “Full report”)
index.php?option=com_remository&Itemid=162&func=fileinfo&id=12(Download Geonauta)
O primeiro mostra-nos diversos testes efectuados ao equipamento em causa, onde importa realçar:
1 – Em caso de “pânico”, o Shunt falhou redondamente a sua função, pois o utilizador não foi capaz de ter o discernimento de largar o equipamento que, por instrução, lhe foi dito ser “a sua segurança”;
2 – Não foi desenvolvido para trabalhar com cordame inferior a 11mm (incluindo os actuais modelos, vide literatura técnica);
3 – Em caso de encontrar um nó no seu período de amortecimento (fim de corda, por exemplo), o Shunt corre o risco de abrir e separar-se da corda. Um á parte sobre esta afirmação: Consta dos relatórios anexos e de outros sites na internet, embora eu não esteja a ver como tal pode suceder! No entanto, assim que tiver um Shunt na mão, vou experimentar;
4 – De utilização desnecessariamente complicada que, na minha opinião, implica deficiente controlo da corda de controlo e focagem de atenção do instruendo num equipamento que não é responsável pela descensão, como tal, secundário no controle da sua segurança, pois é no Simple (ou outro equipamento em uso) que a sua vida está pendurada;
5 – Ao activar o Shunt como segurança, só quem por lá passou é que sabe a confusão que é retomar a descida, com todos os riscos inerentes á manobra.
Analisemos o Stop (da Petzl) como equipamento único em descensão:
1 – Em caso de pânico, o utilizador pode ter o gesto condicionado de se agarrar ao descensor e deste modo provocar a sua “queda livre”. Idêntico ao Shunt. Se por acção, se por choque, quando o utilizador soltar o aparelho, ambos foram desenvolvidos para bloquear a descida;
2 – Quando já são velhotes, e principalmente os de primeira geração, tem tendência a não bloquear imediatamente ou simplesmente não bloquear. Já me aconteceu muitas vezes e eu assim o permiti, sem tocar na corda de controlo, obter uma descida lenta com aterragem suave, e atenção que eu estava perto dos 100kg (até parece que agora não, hehehe);
3 – Funcionam bem com cordame que pode variar dos 9mm aos 10,5mm (dimensões mais comuns em espeleo), embora sejam de utilização desesperante em diâmetros superiores.
Deste modo, e analisadas as coisas, temos dois equipamentos que apresentam vantagens e falhas. Na minha opinião, que parece ser comum a muitos outros, a utilização do Shunt prende-se á linha na qual nasceu a escola, neste caso, a velha escola. Foi assim que aprendi e é assim que eu ensino! Eu acho que está errado. Na minha escola, já usávamos Stop antes de lá ir e a postura foi de nos ensinar a utilizar o equipamento de que dispúnhamos. E aprendemos muito! Surpreendentemente(?) não houve acidentes e não chegamos a usar um Shunt excepto na aula de “vamos lá ver como isto se usa”.
Simplesmente o que acho estranho é a filosofia de: Aqui só te ensinamos a usar isto, quando a formação terminar fazes o que quiseres. Ainda mais aplicado a um equipamento de segurança desaconselhado pelo fabricante e com tantas vozes a erguerem-se contra equipamentos e técnicas tão “velhotas”, embora se calhar, admito, ainda correctas (com muitas reservas…)
A técnica de levar uma mão no cabo de controlo e outra a segurar o descensor e “rabo” ao mesmo tempo não me parece que, por si só, seja mais segura que ensinar a utilizar um Stop em condições. Mesmo em caso de pânico, este último pode minimizar as consequências da queda de forma diferente do Shunt. Isto dito por quem já teve acidentes de formação com o Stop. A segurança activa humana parece ser ainda a mais eficaz em acções de formação.
De toda as formas, não é para já, decisão que nos calhe, pois aos formadores pertence! Embora a coisa possa mudar de figura quando nos calhar na rifa.
Um abraço e... opiniões esperam-se.
Luís Guerreiro João








